22 maio 2011

Outono

Como se a felicidade completa, querida, preparada para uma vida inteira pudesse esperar.
Como se houvesse uma riqueza tão sublime que eximisse qualquer passo precipitado, atitude impulsiva própria dos apaixonados.
Como se existisse uma convicção absoluta, infugível de que o futuro consolidaria cada milímetro do que lhes foi sonhado.
Rita olhava o vestido de noiva posto em cima da cama, tão leve, com a renda e a modéstia que ela tanto e sempre esperou. E finalmente tinha chegado o arranjo do cabelo, em flores e discreto, igualzinho ela desenhou na mente. Podia ouvir a própria respiração naquele misto de ansiedade e dúvida. Estava tudo ali.
E, obviamente, ele estaria lá. Com seu punhado de amor e admiração desapegados num evoluído desejo sincero de maior felicidade do mundo.
Um nível acima dos amores comuns, ela sabia. Sabia que encarar aqueles olhos alegres por vê-la tão bonita e brilhante seria quase como um punhal na alma, dilacerando toda a decorada realidade, fazendo-a sentir-se desconfortável naquele cenário esquisito aos olhos do mundo deles. O mundo à parte, o musicado.
Uma voz bate à porta, tira a menina num susto do fundo daquele mar no qual ela mergulhou e a faz escutar os sons de fora d'agua. Sua respiração agora era o último ruído audível, a movimentação dos preparativos do lado de fora a traz de volta e a costura novamente na realidade. Ela abre as janelas, fazia frio até. O céu azul da manhã, o verde do Outono, os amigos que chegam no aeroporto, a moça das flores que precisa saber da disposição do tal móvel para agilizar a montagem. As amigas que telefonam para saber se podem buscá-la, a mãe que pergunta se ela ainda não foi tomar café. A fome que ela não tem. A lembrança fina e distante do devaneio que acabara de esmiuçar.
Ela tinha medo de que aquele dia chegasse.

Nenhum comentário:

Postar um comentário