18 maio 2012

Fartura

Isso aqui temos agora. Uns poucos livros, dos muitos que ainda enfeitarão a nossa vida, o lar e a estante (eu sonho todos numa só deles, atrás da poltrona roxa de mil novecentos e sessenta e tal, sobre um  tapete colorido redondo e, quase da altura de uma pessoa, um abajour de arremate).
Uns poucos vinis das figuras consagradas, cupidos da nossa história (um dia eu ainda vou achar a Gal novinha e linda estampada com seu cabelão na frente, e guardando segredos da margarina, da Carolina, da gasolina  no verso - versos que me encantaram pelos seus, plágio no começo, essência hoje).
Temos uns santinhos iguais aos de vó, poucos no número, potentes no significado. Teremos muito mais além do corredor de paredes rabiscadas com as nossas orações. A honra de ensinar alguém a rezar com o olhar, o sorriso e o corpo inteiro será a melhor que iremos oferecer.
Temos um violão sem uso, um tamborim de carnaval, um pandeiro de passatempo. Cultivamos uma única planta na janela, dos muitos temperos que sonhamos. Uma Orquídea Azul que imita os quadros da sala mas aparece muito mais que eles.
Nada mal os poucos talheres, guardá-los na caixa de Ferrero Rocher pelo preço de receber amigos que saboreiam as delícias que concordamos. E não faz diferença ter quebrado uma das duas únicas taças de vinho, a gente usa um copo qualquer como fazem os italianos. Para não perder o costume podemos transformar o tapete da sala em butiquim, fritar linguiça calabreza, se entupir de gordura, Brahma e pistache uma tarde inteira discutindo políticas de Saúde e Segurança Pública, corrupção e a culpa da nossa imprensa nojenta. Sem roupa, naturalmente.
Desta bela vista que temos agora, eu vejo o mar. Duas janelas para a paz de um bairro que parece pintura.
Isso aqui temos agora, é sorte, meu amor! É sorte, meus amigos!
Sorte, no meu dicionário, lê-se, vocês já sabem o que...
Isso aqui é um leve começo, um prenúncio, uma palhinha das recompensas que virão por escolher a doação, a entrega, a luta, sem recebê-las com peso, julgo e inquisição.
Isso aqui fazemos agora. Escrevemos contos da nossa obra, compomos os acordes da nossa canção, inspiramos versículos da nossa oração porque acreditamos que além dos trechos de grandes poemas, nossas paredes terão selos, fotos, e netos. No quintal: flores.

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