07 janeiro 2011

Eu tinha uma teoria

Um pouco, só um pouco de leveza, benevolência com o mundo. Um pouco do coração de portas mãos e olhos abertos para os presentes que o amor vem trazendo no alvororecer ou poente de todo dia.
Eu devia ter acreditado. Só para não passar pelo constrangimento que já me é familiar. Mas enfim, não é de todo ruim ser desarmada para ser convencida de que as coisas são melhores do que parecem.
Pois bem, mais uma vez: Ele me enfeita, me enche de mimos, vai atrás de realizar as pequenezas que me aliciam.
Primeiro, aqueles benditos fogos de artifício. Colorido, brilhante, demorado. Incrivelmente logo depois dos meus murmúrios de menina pequena.
Depois, a tardinha de Sol. Deitado na medida exata para fazer sombra nas marcas dos pés na areia fofa. Água do mar verde, limpa. Sem resquícios dos festejos. Chão de tapete, as ondas quebrando na altura certa pra brincar de furar a arrebentação como meu pai me ensinou nos meus oito, nove anos de idade. O primeiro dia de Janeiro. Quando eu resolvi levantar da cama e ir atrás da claridade que ainda se mantinha prá me agradar.
Aconteceu que meu irmão resolveu brigar comigo dois minutos antes da virada do Ano Novo. O problema era a queima de fogos preparada num ponto mais distante que já não dava mais para alcançar antes da meia noite.
Coisa besta.
Meus atrasos, como sempre. Dessa vez não foi culpa minha. Mas ele resolveu que era em mim que devia soltar o verbo. Logo no Réveillon dias antes dele ir embora de casa pra sempre.
Saí de perto prá choramingar e reclamar a minha injustiça.
Só não contava que a solução viria assim, tão imediata. Surgiu tudo montado ao lado, quinze minutos de espetáculo tardio ali, arrebentando em cima das nossas cabeças.
Eu não pude fazer nada além de me sentar no chão, contemplar e sorrir chorando. Meu pai afagando minha cabeça, o Gui sem jeito vindo me desejar um bom ano, as famílias levantando um novo brinde.
Lembrei de ter lido algo parecido em 'A Cabana', as luzes, o festival de cores, o efeito que isso dá nos olhos e no estômago da gente. Papai me ama desmedido, e tem horas que eu acho que faz de propósito pra me ver embasbacada diante de proezas assim, tão pequenas e tão grandes.
Agradeci e me dei por feliz naquela noite.
Mas sabe-se lá porque, amanheci azeda. Acordei, voltei a dormir, acordei de novo, li, voltei pro sono. Recusei o almoço, o convite pro sorvete de uva na beira da praia.
Quase cinco da tarde o meu corpo doía pedindo por favor para que eu desse um jeito naquele desgosto.
E não é que o céu estava aberto da varanda?! Caminhei sem ver aqueles duzentos metros, cheguei lá, e, para minha surpresa, tudo pronto e belo. Nem parecia primeiro do ano. Sem sujeira, mar renovado e delicioso como em nenhum dos dias anteriores, sem chuva e céu nublado.
Mais do que eu precisava.
Novamente agradeci.
Por último, a longa e profunda conversa da madrugada ao sabor de trocas de sabedoria com a experiência de quem já viveu mais. A espiritualidade não podia faltar na pauta. Mulheres de sensibilidade aflorada juntando seus mágicos poderes de amor e doação.
Aprendi que é preciso sempre tentar pelo outro, mesmo que isso signifique que a gente pareça menor do que é. A humildade tem dessas coisas. E vai chegar um tempo em que já não haverá mais tempo, e é quando o nosso coração deve respirar tranquilo por ter feito tudo o que podia alcançar.
Lembrei que "são crianças como você, o que vai ser quando você crescer", e nada como um banho de água salgada e Sol pra dar jeito em qualquer ano inteiro de superaquecimento mental.
Para o 2011 desejo luz no espírito e nos olhos, amor e alegria, e menos imunidade emocional!
Eu tinha uma teoria de que é preciso pouco, muito pouco para ser feliz.

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