10 setembro 2010

A menina dos olhos

Os vários desenhos da personalidade de uma pessoa são tão marcantes e essenciais que é como se fossem únicos. Se faltasse um, já não seria mais a pessoa, mas isolado, também andaria solto, e não caracterizaria nada.
Marieta é a parte sensata e sábia de tudo isso. É o fio crítico, a pincelada de responsabilidade, cheia do dom de ponderar! A parte mais espiritualizada, a que tem os pés mais fixos ao chão. A mais madura, porque consegue ligar coisas abstratas à realidade nua e crua, refletir, e, quando dá, agir do jeito que traz mais felicidade, ou menos desconforto.
Até hoje eu nunca me preocupei em saber exatamente a idade dela. Mas das amigas, parece sempre que é a mais velha.
O que eu sei é que ela convive com a Betina e a Helô, por exemplo, numa harmonia de dar inveja. Eu não teria paciência! Elas botam muita tinta em tudo.
A Betina é menina, sonha o tempo todo, troca os pés pelas mãos; a Helô, uma deslumbrada, sente e se comove até com um passarinho cantando na madrugada na volta do samba... E eu, bom, eu rio de tudo.
A Marieta é minha musa, inspiradora de bons sonhos, sono tranqüilo, organização, tempo para tudo, empenho nos estudos, correr, nadar ou pedalar diariamente. Marieta é paz! Ela sempre se lembra do canto gregoriano para dormir e dos quinze minutos de literatura embaixo do edredom, e depois, as orações lembrando a Papai como foi bom o dia...
Usa pouco a internet e nunca esquece de acender os incensos pelo menos duas vezes por semana, de mandar lavar o carro, colocar água no reservatório do limpador de pára-brisa. Ela se lembra da yoga, e não fica sem a missa dos domingos. Lá ela sabe, mesmo com todas as críticas, que tem colo e certezas como em nenhum outro lugar.
Lembra de ligar para os amigos, pelos menos para dar notícia, contar que anda corrida, mas que, quando tudo se acalmar eles se encontrarão. E ninguém se chateia. Ela sempre dispensa a carne e o guaraná Antártica, lembra de comer a cada três horas, se sente saciada com aquele suco de frutas e linhaça pela manhã. Nunca se esquece do limão em jejum e do chá verde. É viciada em café, tem surtos com chocolate de vez em quando, não fica no samba sem cerveja. Mas até os vícios, nela parecem serenos.
É de longe a mais bem resolvida de nós. Tem sempre pensamentos positivos para partilhar, vivências profundas para analisar, conclusões de amor para doar. Nunca anda carente, ter ou não ter um affair é de longe a menor preocupação. Os homens são loucos por ela!
Ela guarda o charme escondido no sorriso e nos cabelos. E no quando ela dança. Eu acho que é porque nessa hora esquece o mundo, é um ‘ser feliz’ independente. E isso deve ter um efeito meio feiticeiro, afrodisíaco, sei lá. Enfim.
Eu tenho a impressão de que ela é mais próxima de Deus, isso a faz muito alheia às coisas pequenas, a deixa mais bonita e atenta ao que realmente importa. Por isso ela é mais feliz, interessante, e acaba por chamar atenção.
Marieta quer mudar o mundo. Ela pensa e faz. Repensa, critica, se incomoda. Conversa com as pessoas com um jeito cheio de amor e ternura. Vai ser a Enfermeira mais intensa que puder, disso eu tenho certeza. Ela se importa com o saber do outro, com o contexto do outro, não entende como pode existir gente com coragem de julgar pessoas em pleno século vinte e um. Há quem diga que isso é relativizar, mas ela tem certeza que a sabedoria divina é completamente relativista, porque tentar entender a história dos povos, dos tempos, para entender os porquês, é uma questão de justiça e bondade.
O que me entristece é que às vezes ela é a mais oculta, guardada, reservada. Quase nunca sobressai. E seriam tão mais bonitos nossos dias se ela brilhasse toda a luz que carrega! Cresceríamos absurdamente com os tesouros contidos atrás daquela disciplinada beleza sem maquiagem...
A Marieta vê as coisas como são, é sensível e compreende tudo de um jeito especial. Ela gosta de caras com barba, com bom humor, que ouçam boa música. Ela é feminista, e feminina. Acha que Deus mora um pouquinho em cada um e que o trabalho pode ser sinônimo de prazer. Que sexo é fundamental, não é doença. Que a revolução pela paz e pelo esforço diário é possível. Que se o mundo se preocupasse mais com amor do que com regras, aí sim, existiriam menos doentes. Ela quer se casar, ter muitos filhos e amigos para mostrar que é nas pessoas que vive a felicidade. Não nas coisas.

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