14 junho 2015

Um céu que precisa existir


Ouça com calma o Caetano, só depois leia. Ou deixe repetindo enquanto lê, melhor.
Os caracóis são os meus, o recado, em cada verso, é o deles.
Ora em sonhos, ora em pessoas que aparecem falando coisas simples e sinceras como a última gestante do mês de Março, agradecida se despedindo dizendo que eles existem, estão vivos, que devo falar deles, lembrar, e pensar no nosso reencontro. Ou no som do carro da volta pra casa numa solidão que é só minha.
Dois meses, um pouco mais. Um tempo que pesa em cada minuto, cada hora, cada dia.
Sinto que deus me aliciou. O mesmo deus de uns anos atrás, me seduziu dizendo coisas bonitas e agora reaparece perverso, sem dó. Sem amor nenhum.
E olha de longe, do alto a sua menina dos olhos definhar de tristeza, raiva e dor.
Sinto dor. Dor na alma, dor na mente, dor no corpo. Meus ossos doem.
Essa perda de chão, de uma vida inteira sonhada pela frente, essa perda corrói de um jeito tão triste e lento que nem nos piores pesadelos eu poderia supor.
Parece que a vida me colocou de frente com o meu maior pavor. Estar sem meus pais. Os dois. Aquilo que era indizível, surreal. Assim, de uma hora pra outra.
Porque???
Posso gritar muito alto, ou repetir sem parar no pensamento que a resposta nunca aparece.
Tantos planos, tanto esforço, cinquenta e poucos anos de doação, de entrega para chegar até aqui, para ter esses filhos, esperar os tais netos, todo mundo junto nos lugares bonitos. E de repente, nada mais. Ponto final. Tão cruel. Não reconheço aquele deus nessa tragédia.
Só consigo ver Deus neles. No Amor que conheço deles, que aprendi ali, naquela casa bagunçada, sem móveis combinando, as vezes com quase móvel nenhum. Naquele ninho de discussão, briga e desculpa; de bronca e depois carinho; de café da manhã demorado de sábado, almoço mais ainda de Domingo. Só vejo Deus no pé de caju e piscina de plástico com meu pai no Amazonas, na minha mãe montando casinha pra eu desistir de brincar quando tudo pronto.
Só vejo Deus em cada milímetro de lembrança que eu possa ter dos meus pais, da voz, do jeito, de tudo o que me irrita ou agrada neles. 
Eu só desejo agora voltar pra minha gente.
Aprendi que ter vontade de morrer é diferente de querer se matar. Li num livro que falava de luto e que deu voz aos meus sentidos.
Querer morrer é ter pressa, é um olhar cansado para o tempo longo que ainda está por vir, é ter esperança de ficar junto de novo.
Mas para isso eu preciso acreditar que há de ter uma areia branca para os pés pisarem.
Volto ao ponto de partida, volto para a necessidade absoluta de se crer em algum deus que torne tudo isso possível.
Meu pai me cantou essa música enquanto minha mãe só olhava e fazia um carinho tímido na minha mão. Eles combinaram assim pra eu não estranhar. Pra continuar a ser tudo como era antes em nossos corações. Pra eu ficar tranquila de que vai demorar, que eu ainda vou chorar muito e muito, mas que eu posso esperar tranquila porque estará tudo pronto, como sempre, quando eu chegar.
Gratidão, gratidão, gratidão!
Por tanto cuidado, amor, e preocupação, Pai e Mãe!

Um comentário:

  1. Poucas coisas já me emocionaram como esse texto. Toda essa dor, todo esse amor, só reforça a minha certeza que eles existem, que eles olham por ti, que eles seguem lutando, trabalhando, amando, sorrindo e chorando em outro plano. É preciso mais do que fé em um Deus, é ter fé em quem amamos, nas histórias que construímos, nessa bagagem de muitas vidas que nos acompanha. Esse amor, essa presença, as lembranças e o carinho ninguem pode tirar de ti. Nem um Deus tirano, nem um Deus misericordioso. A areia branca existe, e as vezes, se a gente se concentrar, meditar e escutar nosso espirito, conseguimos senti-la. O amor tem raízes muito mais profundas do que imaginamos. Os netos virão e tenha certeza de que eles farão parte disso. Te amo MUITO e sua história, também é minha, pq me faz cada vez mais exercitar a fé e o amor.

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