22 janeiro 2012

Sorriso Buarqueano

Meu coração estava tão descontrolado, quase deixou passar o 'Desalento' irresistível, e 'De Volta ao Samba' da abertura - como uma luva há exata-aproximadamente um mês da minha chegada perene ao Rio.
Mas música a música eu me acalmava. Da taquicardia me tapando os ouvidos, do deslumbre capaz de me sabotar e deixar quase fora do momento.
Tudo bem que ele decida soprar as minhas favoritas, assim, logo de cara, para me impressionar. Mas que diferença isso faz se, convenhamos, tudo o que sai da mente e da boca deste ser incontestável eu aprovo em espetáculo?
Ainda bem, o corpo da gente é sábio. Porque era preciso relaxar. De tal forma que a arte mergulhasse nos meus poros e, através de cada um deles, chegasse física e espiritualmente dentro da minha alma.
Era extremamente preciso uma entrega sem estorvo à criação refinada, para que os noventa minutos seguintes se perpetuassem na minha história.
E assim foi, me livrei do frisson, mas não do encantamento, não do fascínio. Não do frio da barriga inerente ao estar (com o perdão da tietagem) a menos de vinte metros do grande poeta e escultor de música dono do meu maior apreço. De ouví-lo sem masterização, com pouca tecnologia nos separando.
Colado comigo estava o meu melhor parceiro, o companheiro mais inacreditável que a vida me trouxe, o meu recém-chegado grande amor. O Preto foi o malandro responsável pelo presente de Natal mais especial de todos os tempos.
Um ingresso da apresentação do Chico Buarque, e sua companhia amante de boas coisas da vida.
Do outro lado do telefone, o grande herói, o merecedor de todas as honras pelo pouco do bom gosto que guardo nesse mundo de abadás e melôs universitários lamentáveis.
Meu querido pai achou graça na minha histeria e berrava de volta para eu responder, afinal, qual era a canção, porque não dava mesmo para escutar. Não faz mal. Mais tarde eu ouvi, em êxtase, 'Geni e o Zepelim' por nós dois. Como nas manhãs de Domingo da minha infância.
Entre as minhas preferidas e as apaixonadas do disco novo, estavam as clássicas que não se deve mesmo morrer sem ver.
Achei bom por ter esperado até o dia vinte, pois, disseram as más línguas, ele andava muito nervoso no primeiro show do Rio, preocupado com o tempo da respiração, a exatidão da voz. Enfim. Em respeito ao público, na humildade de quem já esteve entre vaias compartilhando 'Sabiá' em parceria com Tom Jobim. Sabe como é, não se vê muito disso atualmente.
Sinto-me realizada por ter vontade e prazer em prestigiar algo disponibilizado de forma que não se admite outra coisa, senão a perfeição!
Sou mais feliz por poder falar aos meus filhos, em algum tempo, sobre este dia. Sobre o misto de riso e choro pela satisfação que aquela obra prima me roubou. Sobre o furdunço interno causado pelos versos fazendo festa depois de invadir o meu ser.
Não queria ser piegas, mas não vejo outro jeito. Existe uma necessidade descomunal em descrever e guardar a noite de sábado, para quando os anos quiserem me levar o colorido da memória e eu não mais puder lembrar com tanta riqueza dessas impressões.
Foi emocionante como nunca, um marco, um selo
Feito tatuagem, que você pega, esfrega, nega, mas não lava...
Eu vi um gênio de perto. Eu vi!

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