Tenho quase sempre a mesma impressão de aeroportos. Acho que reside um misto de expectativa e melancolia nas paredes, no chão, no teto alto, nos carrinhos de malas, nas escadas rolantes, nos cafés. Guardo sempre a mesma sensação de ansiedade e nostalgia que aquele cheiro me causa.
Sim, os aeroportos têm disso, um cheiro próprio. Um perfume que as mentes e corações prestes a viajar exalam. Lotados de emoções que só quem conhece e enaltece o gosto desse prazer consegue mensurar. Quem viaja cultiva uma saudade e muitas vontades. Daquilo que deixa para trás, de quem fica num abraço, de quem vai encontrar, das bonitas e guardadas histórias largadas no ponto de partida ou das aventuras que o aguardam aflitas na chegada. É uma pulsante e envolvente angústia de coração dividido. São litros de despedidas e planos. De liberdade.
À minha volta vejo os tipos de gente. Aquele executivo engravatado, impecável e charmoso com seu computador e mil coisas importantes que parecem não caber na ponderada (e não menos charmosa) pequena mala. Minha impressão é geralmente a mesma: o que ele leva dentro dela deve ser razoável e essencialmente mais útil do que as peças de roupa em excesso que faço pesar em todas as minhas andanças. Outra invariável sensação é que eles têm alguma coisa de pedofilia, ingenuamente esquecendo que eu - assim como os outros pares de pernas ou belos cabelos para os quais esses homens olham nada disfarçadamente - tenho já meus vinte e cinco, o que isenta tais senhores de qualquer crime a não ser a gafe de ignorar a própria aliança dourada e reluzente do anelar esquerdo. Acontece.
Gosto mais das pessoas que degustam simultaneamente um cappuccino e um livro enquanto esperam o embarque, deixando a gente pensar que o mundo à sua volta e toda aquela atmosfera ansiosa é quase nada. Em minha opinião, um jeito mais elevado de se saborear a iminência do pé na estrada, pois, não vejo maneira mais adequada de se usufruir a liberdade que somar livros com viagens. É verdade que esse desenho me faz sentir confortável por, pretensiosamente, me achar parte de uma espécie de clã, um círculo quase místico que se estabelece naturalmente entre os que partilham do bom costume da literatura e que, segundo um grande amigo meu, pautado na descrição de Kundera, se identificam e se entendem pelo olhar.
Não menos atrativo que este tipo de gente, meus olhos se fixam também em todo e qualquer mochileiro andante. Isso sim tem a ver com uma admiração bem pessoal, dando razão aos meus amigos que me rotulam num certo perfil bicho-grilo, um tanto quanto exagerado já que estou longe, bem longe do desprendimento de uma hipponga de verdade.
A tal pinta tranquilona me é muito atraente, eu carrego a leve impressão que são pessoas mais interessantes. E sinceramente, quase nunca erro. Vejo três amigas desapegadas, capazes de planejar e executar idas e vindas por lugares diversos, dispostas a hospedar-se em qualquer pousadinha ou acampar (certas de que o que interessa são as belas almas que se vai poder conhecer, e as fotos mentais das paisagens que virão), vestindo shorts e chinelos, portando suas práticas mochilas (para mim, um símbolo de independência, porque a última coisa que fazem você precisar é de um táxi). Sem falar da parcela masculina desse público. Quase irresistível, porque além da pele queimada de sol e corpo numa medida exata de quem muito caminha, corre, pedala, nada e pega onda, eles têm olhos que brilham incrivelmente e uma grande capacidade de conversar com inteligência. Um resultado espontâneo do dom de apreciar coisas boas e simples como a natureza, música de qualidade, espiritualidade, cultura e arte. Penso então no gosto bom que tem esse meu mudado jeito de ver a vida. Sou convencida de que eu não poderia trocar meus últimos anos por nada no planeta!
Acho engraçado também quando tem um casalzinho há horas tentando uma despedida. A maneira como, no inevitável momento dele rumar à sala de embarque, as mãos se mantém unidas até a última pontinha dos dedos que escorrega.
Gosto de analisar os abraços, quanto tempo demoram, quanto de aperto deve existir dentro, pelo aperto que se vê de fora. O timbre agudo e sem graça de quem fica e deseja boa viagem, as superficialidades que se conversam numa roda enquanto a hora de quem parte não chega e se faz (mais educado do que necessário) esperar.
Acho curioso as pessoas parecerem subitamente tão sérias e compromissadas. Porque muitas devem ser gente como eu, que raramente estou ali por um motivo de vida ou morte profissional.
No aeroporto eu fico intimidada por algo que não sei bem o que é. Talvez a vastidão do mundo engolidor que ele representa, sedutor e apavorante ao mesmo tempo. Detenho-me a observar padrões, jeitos de andar, de vestir, de agir desses seres diversos que perambulam por lá.
Disso tudo, o incontestável grau da minha paixão por me descobrir quando pulo fora do meu todo-dia e me permito conhecer mundinhos tão iguais ou diferentes do meu. Graças às minhas adoradas viagens. E, muitas vezes, ao aeroporto.
Sempre saio com um querer de voltar logo, e por mais que eu o faça de tempos em tempos, com considerável freqüência, invariavelmente o estranhamento é o mesmo. O cheiro intimidador, igualzinho. E uma excitação toma conta de cada parte minha. Frio na barriga, última chamada.
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