Vinicius de Moraes sempre na mosca...
Oito e trinta e um da manhã, e trinta e três graus marcavam os termômetros na capital federal, trinta e nove ao meio dia. O tempo todo: as cigarras e a secura.
Mas o que mereceu mesmo os sorrisos de inspiração foi o fim da tarde. O som da porta do meu quarto batendo, a água molhando o sofá pela janela da sala. Aquele temporal em pleno céu azul que me fez imediatamente vestir a calça jeans mais desbotada e suja, e descer correndo para sentir na pele o humilde espetáculo.
Curiosamente, logo no 12 de Outubro em que completo oito anos de Brasília.
Um banho de chuva é uma coisa besta, verdade! Mas aqui, nessa época do ano, é uma delícia que poucos podem desfrutar. Não só pela seca, mas por estarem trabalhando, estudando pela aprovação em concursos públicos, ou por estarem muito bem abrigados em seus carros, meios de transporte de uma pessoa só, para variar.
O que quero dizer é que a minha decisão em ir pra rua fez o meu dia mais bonito.
Fez-me lembrar o sossego que Brasília inspira desde quando eu pus os pés aqui pela primeira vez. E me voltou ao coração a saborosa sensação que é estar paralisada na beira da cachoeira, na beira do Sol se pondo na Ermida, ou diante dos grandes espaços laranja-esverdeados do cerrado que habita a cidade. Aquilo que ainda me prende. O encanto que é esse mato meio místico embutido nas construções tão quadradas, tão cinzas, tão iguaizinhas. Em meio a pessoas distantes, que pouco se esbarram, pouco se falam. Em meio a tanta mania de status.
O pensamento é quase sempre o mesmo: e a água dessa cachoeira nunca pára de descer! Os calangos também não deixam de sair ao Sol, as trilhas nunca saem de lá, o céu continua multicolorido no fim do Eixo Monumental.
A chuva me refrescou a memória de que além da natureza, muito mais é fonte de serenidade e segurança por aqui.
Brasília é o lugar em que Deus resolveu me sentar no colo e mostrar pitadinhas do bordado de cima, entendeu que era aqui, lá nos meus dezessete, que deveríamos ser apresentados cara a cara, Ele Papai, eu a flor.
Em Brasília tem Fernada, tem Cláudia, tem Flávio. Tem Ana, Didi, Liloca, tem Carina. Tem Talitha, tem Ju, Jordana, Carol. Teve Danilo, teve Bibi, teve Balata. Teve Luiza, Michele, Fabi. Tem Dani, Lauana, Ray, tem Rafa. Nomes que vão estar pra sempre tatuados na minha história.
E tem reggae! Tem forró pé-de-serra, tem zouk. Tem samba-rock, tem Calaf! Tem tempos de alegria sufocante pós-frustração extrema! Tem crescer e morar só por três anos, eu e o Gui amadurecendo cúmplices. Tem crescer mais ainda voltando a morar com pai e mãe. Tem colo de pai e mãe.
Brasília tem UnB, que me tornou filha do mundo, me fez conhecer e amar a diversidade! Tirou a venda do universo de pequenez que o moralismo barato do meio em que eu vivia me impunha. Tirou junto o salto alto, incômodo absoluto. Tirou a insegurança de não ser exatamente aquilo que os outros esperam, e ensinou a sentir plenitude no fazer o que se ama.
Brasília, pasmem, tem arte! Tem cultura popular aos montes, tem circo, tem dança, tem bicicleta, tem lago, tem caiaque. Tem gente alternativa e linda. Perto daqui tem Chapada, tem Piri.
Tem a calmaria da minha janela, a paz do meu quarto, e um passarinho que canta sempre que eu volto do samba às duas ou três da manhã. Tem grama, árvore, e espaço por todo lado, e cigarra gritando no mês de Outubro.
Aliás foi assim que a conheci. Ensolarada, azul, meio vermelha, meio verde e barulhenta!
Foi mesmo apaixonante.
Do nosso destino eu não sei. Sei que quando estiver longe daqui vou querer muito sentir aquele alívio de quando o avião está pousando. Independente de qualquer reclame, vontade ou saudade de outro lugar, é no cerrado que eu respiro em paz.
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