O Júnior é o amor da vida da Helô (a minha amiga, a do malandro).
Ela se apaixonou por ele um tempo depois que o Chico foi embora. Para ser mais exata, no dia em que completou dezoito anos.
Na festinha, no sábado, na casa dela. Os pais, os amigos, os penetras, o bolo, a cereja.
Bendita cereja. Tem até uma foto. Famosa foto. Famosa cereja. A que ninguém queria, a que ninguém gostava. E, pasmem, nem ele. Para o espanto dela, seis anos depois, quando descobriu.
Alguém tem alguma explicação? Uma cereja? De onde será que ele tirou que aceitar a bendita da fruta - a contragosto - ia dar aquele PLIM? Como num passe de mágica, num segundo. Que nem em desenho, o cupido, a flecha e tal. Inacreditável. E parece que a coisa pairou no ar, quem presenciou sentiu, constrangido, a constatação e o susto dela. Menos ele, com aquele risinho de sempre, satisfeito com o efeito da proeza.
Incrível, a história mais besta que eu já ouvi. Eram amigos. Ela nunca tinha olhado prá ele, tão magrinho, pinta de estudante da oitava série. Tão, mas tão certinho, que em tudo lembrava o Kaká do futebol (sim, isso é bem brega). Nenhum sinal de cafajestagem, resquício de malandragem. Bom menino, bom filho, bom aluno, bom amigo, péssimo namorado. Nunca na vida! Helô sempre foi meio masoquista no amor, logo, o príncipe estava longe de ser seu objeto de desejo. Mas a tal da cereja tinha alguma mandinga braba. Só pode.
Na semana seguinte ela bebeu demais e dos amigos, óbvio, ele foi o encarregado de cuidá-la. Exagero, porque o beber demais da época era limitado ao falar pelos cotovelos, surtos de carinho e cambalear um tiquinho no andar. Suficiente para deixar a menina vulnerável dando ouvidos à conversa mole, que, para sua surpresa, ele tinha. Vai ver que foi o quê de espertalhão saliente naquela noite que mudou o rumo do folhetim. Quem sabe.
No outro dia ele estava embaixo do prédio dela, com uma desculpa esfarrapada de buscar um anel esquecido. Beijaram-se, passaram a noite ouvindo um CD romântico de flashbacks do fundo do baú, que repetiu algumas vezes, até dar cinco da manhã e se despedirem.
Bem, esse foi começo. Eles nunca mais se esqueceram. Mil desencontros no caminho. Tempos de total ausência de notícia. Eventuais reencontros virtuais. Beijo no carnaval do ano seguinte. Telefone, e-mails, mensagens, fofocas. Amor à distância é foda.
Acabou que cada um seguiu seu rumo, tratou de arrumar um namoro sério e pronto. Pronto nada. Já dizia Vinícius, sabiamente, “a vida é a arte do encontro”.
Quase quatro anos depois o telefone dela toca. Domingo à tarde. Código de área do RJ. Eu hein. Devia ser o Pedro, melhor amigo que morava por lá. Atende, erra o palpite. Ele corrige falando o nome inteiro, sem o Júnior. E ri - aquele som que ela achava que tinha esquecido como era. Tão agradável que desmonta as pernas, sabe? Eu acho super esquisito. Mas ela diz.
Pois bem. Ele estava ali, pessoalmente, palpável. Perto. Movendo mundos para vê-la. Ela ria, saltitava e se alterava no telefone comunicando a todas as amigas, uma por uma. Não dormiu nada naquela noite, e bem pouco nas seguintes, não comeu por uma semana, mal deu sinal de vida ao namorado sério durante sete dias.
É bom deixar claro que a Helô e o Júnior não ficaram juntos. Assim, de beijos e lábios. Mas passaram os dias mais coloridos e estrelados que puderam. Trocaram confissões e tesouros guardados. E o abraço, que era como um código. Só deles. Na manhã do dia em que ele foi embora ela ganhou de presente a cópia daquele CD romântico. E, um pouco antes, voltando da madrugada, deu a música que guardava há tempo, ele deitado no colo, perplexo, visivelmente emocionado. Acho que nem sabia que ela cantava.
Ela nunca esquece a última noite, quando ele quebrou o gelo na volta do bar da boate, enquanto, fingindo ser o oficial, afastava os marmanjos que aproveitavam a lotação do ambiente para abordá-la. Parou, segurou no braço. Eu gostaria de salientar que você está muito linda hoje. Daquele jeito, meio irônico, meio tímido. Nunca dá prá saber. Babaca. Mentira. Entorpecente. Foi isso que ela pensou, e sorriu.
Depois do aeroporto, as mãos suadas, ele nervoso. Passou. De lá prá cá, só aparições virtuais. Ligações embriagadas da parte dela. Riso solto, de quem não bebe e tudo acha graça, da parte dele. Os dois namoros sérios se desfizeram. Ele tratou de começar logo outro. Ela não. Coisas da vida. E seguem.
A Helô decidiu, faz um bom tempo, que não procura mais. E parece que ele descobriu, dessa vez era sério. Resolveu então telefonar de vez em quando, assim, só para desestabilizar. Numa dessas, inventou de dizer com todas as letras o Euteamo jamais proferido.
Ela, obviamente, quase infarta toda vez que isso acontece.
O Júnior é o amor da vida da Helô! Eles se comunicam pelo pensamento. É só ela lembrar forte que ele reaparece, tudo volta. Como se fosse ontem. Como se o tempo e todo esse espaço entre os dois fossem nada. Como se faltasse pouco, muito pouco, para tudo tomar seu devido lugar e o conto das fadas acontecer. Assim, imutável e puro. Quase infantil. Acho lindo.
Ela se apaixonou por ele um tempo depois que o Chico foi embora. Para ser mais exata, no dia em que completou dezoito anos.
Na festinha, no sábado, na casa dela. Os pais, os amigos, os penetras, o bolo, a cereja.
Bendita cereja. Tem até uma foto. Famosa foto. Famosa cereja. A que ninguém queria, a que ninguém gostava. E, pasmem, nem ele. Para o espanto dela, seis anos depois, quando descobriu.
Alguém tem alguma explicação? Uma cereja? De onde será que ele tirou que aceitar a bendita da fruta - a contragosto - ia dar aquele PLIM? Como num passe de mágica, num segundo. Que nem em desenho, o cupido, a flecha e tal. Inacreditável. E parece que a coisa pairou no ar, quem presenciou sentiu, constrangido, a constatação e o susto dela. Menos ele, com aquele risinho de sempre, satisfeito com o efeito da proeza.
Incrível, a história mais besta que eu já ouvi. Eram amigos. Ela nunca tinha olhado prá ele, tão magrinho, pinta de estudante da oitava série. Tão, mas tão certinho, que em tudo lembrava o Kaká do futebol (sim, isso é bem brega). Nenhum sinal de cafajestagem, resquício de malandragem. Bom menino, bom filho, bom aluno, bom amigo, péssimo namorado. Nunca na vida! Helô sempre foi meio masoquista no amor, logo, o príncipe estava longe de ser seu objeto de desejo. Mas a tal da cereja tinha alguma mandinga braba. Só pode.
Na semana seguinte ela bebeu demais e dos amigos, óbvio, ele foi o encarregado de cuidá-la. Exagero, porque o beber demais da época era limitado ao falar pelos cotovelos, surtos de carinho e cambalear um tiquinho no andar. Suficiente para deixar a menina vulnerável dando ouvidos à conversa mole, que, para sua surpresa, ele tinha. Vai ver que foi o quê de espertalhão saliente naquela noite que mudou o rumo do folhetim. Quem sabe.
No outro dia ele estava embaixo do prédio dela, com uma desculpa esfarrapada de buscar um anel esquecido. Beijaram-se, passaram a noite ouvindo um CD romântico de flashbacks do fundo do baú, que repetiu algumas vezes, até dar cinco da manhã e se despedirem.
Bem, esse foi começo. Eles nunca mais se esqueceram. Mil desencontros no caminho. Tempos de total ausência de notícia. Eventuais reencontros virtuais. Beijo no carnaval do ano seguinte. Telefone, e-mails, mensagens, fofocas. Amor à distância é foda.
Acabou que cada um seguiu seu rumo, tratou de arrumar um namoro sério e pronto. Pronto nada. Já dizia Vinícius, sabiamente, “a vida é a arte do encontro”.
Quase quatro anos depois o telefone dela toca. Domingo à tarde. Código de área do RJ. Eu hein. Devia ser o Pedro, melhor amigo que morava por lá. Atende, erra o palpite. Ele corrige falando o nome inteiro, sem o Júnior. E ri - aquele som que ela achava que tinha esquecido como era. Tão agradável que desmonta as pernas, sabe? Eu acho super esquisito. Mas ela diz.
Pois bem. Ele estava ali, pessoalmente, palpável. Perto. Movendo mundos para vê-la. Ela ria, saltitava e se alterava no telefone comunicando a todas as amigas, uma por uma. Não dormiu nada naquela noite, e bem pouco nas seguintes, não comeu por uma semana, mal deu sinal de vida ao namorado sério durante sete dias.
É bom deixar claro que a Helô e o Júnior não ficaram juntos. Assim, de beijos e lábios. Mas passaram os dias mais coloridos e estrelados que puderam. Trocaram confissões e tesouros guardados. E o abraço, que era como um código. Só deles. Na manhã do dia em que ele foi embora ela ganhou de presente a cópia daquele CD romântico. E, um pouco antes, voltando da madrugada, deu a música que guardava há tempo, ele deitado no colo, perplexo, visivelmente emocionado. Acho que nem sabia que ela cantava.
Ela nunca esquece a última noite, quando ele quebrou o gelo na volta do bar da boate, enquanto, fingindo ser o oficial, afastava os marmanjos que aproveitavam a lotação do ambiente para abordá-la. Parou, segurou no braço. Eu gostaria de salientar que você está muito linda hoje. Daquele jeito, meio irônico, meio tímido. Nunca dá prá saber. Babaca. Mentira. Entorpecente. Foi isso que ela pensou, e sorriu.
Depois do aeroporto, as mãos suadas, ele nervoso. Passou. De lá prá cá, só aparições virtuais. Ligações embriagadas da parte dela. Riso solto, de quem não bebe e tudo acha graça, da parte dele. Os dois namoros sérios se desfizeram. Ele tratou de começar logo outro. Ela não. Coisas da vida. E seguem.
A Helô decidiu, faz um bom tempo, que não procura mais. E parece que ele descobriu, dessa vez era sério. Resolveu então telefonar de vez em quando, assim, só para desestabilizar. Numa dessas, inventou de dizer com todas as letras o Euteamo jamais proferido.
Ela, obviamente, quase infarta toda vez que isso acontece.
O Júnior é o amor da vida da Helô! Eles se comunicam pelo pensamento. É só ela lembrar forte que ele reaparece, tudo volta. Como se fosse ontem. Como se o tempo e todo esse espaço entre os dois fossem nada. Como se faltasse pouco, muito pouco, para tudo tomar seu devido lugar e o conto das fadas acontecer. Assim, imutável e puro. Quase infantil. Acho lindo.
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